segunda-feira, 12 de maio de 2008

Cinzas dos Tempos - Kahlil Gibran


ESSE TEXTO É DEDICADO A TODOS OS QUE ACREDITAM QUE O VERDADEIRO AMOR ESPERA UMA VEZ MAIS, OU MELHOR, ESPERA QUANTAS VEZES FOREM NECESSÁRIAS. A QUEM ACREDITA QUE O AMOR É A ÚNICA FORÇA CAPAZ DE ATRAVESSAR OS MISTÉRIOS DA VIDA E DA MORTE... A FORÇA MOTRIZ DA VIDA, PARA A QUAL NÃO EXISTEM DISTÂNCIAS E NEM IMPEDIMENTOS, NEM FRONTEIRAS GEOGRÁFICAS OU ESPIRITUAIS... DEDICO O MARAVILHOSO E INIGUALÁVEL KAHLIL GIBRAN A TODOS OS QUE, COMO EU, ACREDITAM NA FORÇA DO AMOR ATUANDO EM NOSSAS VIDAS, E NOS ENSINANDO A BUSCAR E ENCONTRAR DIREÇÕES!!!

Cinzas dos Tempos - Kahlil Gibran

PARTE I

Primavera do Ano 116 A.C.

Já tinha caído a noite, e tudo era silêncio, enquanto a vida se arrastava na Cidade do Sol e as lâmpadas se apagavam nas casas espalhadas entre templos majestosos, ao meio de oliveiras e loureiros. A lua derramava seus raios prateados sobre as colunas de mármore branco, que se erguiam, como gigantes, no silêncio da noite, mantendo guarda aos templos dos deuses e como que contemplando com perplexidade as torres do Líbano, que se erguiam nos cumes, ao longe, das montanhas.

Aquela hora, quando as almas sucumbiam ao peso do sono, Natã, o filho do Sumo Sacerdote, entrou no templo de Istar, trazendo, nas mãos trêmulas, uma tocha.

Acendeu as luzes e os incensórios, até que o perfume da mirra e do olíbano alcançasse os últimos recantos; então ajoelhou-se diante do altar crivado de incrustações de ouro e marfim, ergueu as mãos à Istar e, com voz embargada e dolorida, exclamou: "Tem piedade de mim, ó grande Istar, deusa do Amor e da Beleza. Tem misericórdia e remove as mãos da Morte da minha Amada, eleita da minha alma, por tua vontade. Os remédios dos médicos e dos curandeiros não lhe restauram a vida, nem os encantamentos dos sacerdotes e feiticeiros. Nada resta fazer-se senão a tua santa vontade. Tu és a minha guia e meu auxilio. Tem piedade de mim e ouve a minha prece. Contempla o meu coração e a minha alma sofredora! Poupa a vida da minha Ama­da, de modo que eu possa regozijar-me com os segredos do teu amor e gloriar-me na juventude, que revela o mistério da tua força e sabedoria. Das profundezas de meu coração imploro a ti, ó suprema Istar! Das profundezas da escuridão da noite im­ploro a tua misericórdia! Ouve-me, ó Istar! Sou o teu dedicado servo Natã, filho do Sumo Sacerdote Irã, e dedico todas as minhas palavras e atos a tua grandeza, no teu altar.

"Eu amo uma jovem entre todas as jovens e a fiz minha companheira; mas os gênios do mal invejaram-na e sopraram em seu corpo uma aflição estranha e enviaram-lhe o mensageiro da Morte, que se pôs à sua cabeceira, como um espectro faminto, espalmando suas negras asas sobre ela e abrindo as suas agudas garras, prontas para a agarrarem.

"Aqui estou para rogar-te que tenhas piedade de mim e poupes aquela flor que ainda nao se regozijou com o Verão da Vida. Salva-a das garras da Morte, de modo a podermos cantar alegremente em teu louvor, queimar incenso em tua honra e oferecer sacrifícios em teu altar, enchendo os teus vasos com óleo perfumado, espalhando rosas e violetas no teu lugar de adoração e queimando olíbano diante de teu sacrário. Salva-a, ó Istar, deusa dos milagres, e faze com que o Amor vença a Morte nesta luta da Alegria contra a Tristeza".

Natã então calou-se. Seus olhos inundaram-se de lágrimas e seu coração soltava sentidos suspiros; e depois continuou: "Ai de mim! Meus sonhos se desfizeram, ó divina Istar, e meu coração murchou. Revigora-me com a tua misericórdia e poupa a mi­nha Amada!"

Nesse instante um dos seus escravos entrou no templo, correu ate Natã e sussurrou-lhe aos ouvidos: "Ela abriu os olhos, senhor, e, olhando ao redor, na sua cama, não o encontrou; entao chamou pelo senhor, e vim, por isso, à toda pressa, chamá-lo". Natã partiu apressadamente e o escravo seguiu-o.

Quando ele chegou ao seu palácio, entrou no quarto da pobre enferma, curvou-se sobre a sua cama, segurou-lhe a mão delicada e frágil, e beijou-a nos lábios várias vezes, como que tentando transfundir no corpo dela uma nova vida de sua própria vida. Ela moveu a cabeça nas almofadas de seda e abriu os olhos. Brotou-lhe nos lábios a sombra de um sorriso que era um leve resto de vida do seu corpo gasto, eco do apelo de um coração que parece parar aos poucos. E com uma voz que soava como o choro sumido de uma criança com fome, ao seio de uma mae exangue, ela disse: "A Deusa chamou-me, ó Vida da minha Alma, e a Morte veio separar-me de ti. Mas não temas, pois a vontade da Deusa é sagrada, e as exigências da Morte são justas. Estou partindo agora e ouço o sussurro de uma alvura que desce sobre mim; mas as taças do Amor e da Juventude ainda estão cheias em nossas mãos, e os caminhos floridos da Vida ainda se estendem, belos, à nossa frente. Estou partindo, meu Amado, na arca do espírito, mas voltarei a este mundo, pois a grande Istar trará de volta a vida as almas dos namorados que partirem para a Eternidade antes de gozarem a doçura do Amor e a ventura da Juventude.

"Encontrar-nos-emos, de novo, Natã e beberemos juntos o orvalho da madrugada nas taças das pétalas dos lírios e nos regozijaremos com os pássaros das campinas além das cores do arco-íris. Até então, meu-por-toda-a-vida, adeus!

Sua voz baixou, e seus lábios tremeram, como a flor solitária ante as lufadas da madrugada. Natã abraçou-a, com lágrimas nos olhos e, ao apertar os seus nos lábios dela, sentiu-os frios como uma pedra. Soltou um grito alucinante e começou a rasgar as suas vestes. E atirou-se ao corpo inanimado, enquanto sua alma em pranto boiava, inconsciente, entre a montanha da Vida e o precipício da Morte.

No silêncio da noite as almas adormecidas acordaram. Mulheres e crianças aterrorizaram-se ao ouvirem um grande estrondo, os penosos gritos e as amargas lamentações que vinham de todos os cantos do palácio do Sumo Sacerdote de Istar.

Quando chegou a manhã cansada, seus amigos procuraram Natã, para apresentar-lhe as suas expressões de simpatia; mas disseram-lhes que ele havia desaparecido. Uma quinzena depois o chefe de uma caravana recém-chegada do Oriente informou que havia visto Natã num deserto distante, vagando com um bando de gazelas.

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As idades passaram, esmagando, com os pés invisíveis, os vislumbres de civilizações, e a Deusa do Amor e da Beleza tinha deixado a região. Uma deusa estranha e fraca tomou o seu lugar. Ela destruiu os magníficos templos da Cidade do Sonho e demoliu os seus lindos palacios. Granjas florescentes e férteis prados foram devastados, e nada restou no local, senão ruínas, lembrando às almas sensíveis os gênios de Ontem, e repetindo aos espíritos tristes o eco, apenas, dos hinos de glória.

Mas as idades cruéis que esmagaram os feitos dos homens não puderam apagar os seus sonhos nem puderam enfraquecer o seu amor, pois os so­nhos e as afeições são eternos, como o Espírito Eterno. Sonhos e afeições podem desaparecer, por algum tempo, acompanhando o sol, quando a noite vem, e as estrelas, quando a manhã desponta, mas, como as luzes dos céus, eles, infalivelmente, voltam.

PARTE II

Primavera do Ano 1890

O dia estava findo, a Natureza fazia os seus muitos preparativos para o sono, e o sol recolhia os seus raios dourados das planícies de Baalbek. Ali El Hussein trazia o seu rebanho de volta ao redil, no meio das ruínas dos templos. Sentava-se ele perto das antigas colunas erguidas em lembrança dos inúmeros soldados tombados no campo de batalha.

As ovelhas faziam um círculo ao redor, encantadas com a música de sua flauta. Veio a meia-noite e o céu espalhou as sementes do dia seguinte nos profundos sulcos da escuridão. Os olhos de Ali cansavam-se das sombras de sua vigília, e a sua mente exauria-se na procissão de fantasmas, marchando em terrível silêncio ao meio de paredes demolidas. Descansou em seu proprio braço, e os seus cinco sentidos o envolveram com a ponta extrema de seu véu em pregas, como uma nuvem delicada, tocando de leve a face de um lago tranquilo. Ali esqueceu-se da sua individualidade atual e encontrou a sua identidade invisível, rico de sonhos e ideais mais altos do que as leis e os ensinamentos dos homens. Seu círculo visual alargou-se-lhe diante dos olhos, e os segredos da Vida tornaram-se, gradualmente, claros a ele. Sua alma abandonou o rápido desfile do tempo, correndo para o nada; ele permaneceu só, entre pensamentos simétricos e idéias transparentes, de tão claras. Pela primeira vez na vida Ali atinava com as causas da fome espiritual que o acompanhava desde a juventude. A fome que equilibrava a amargura e a doçura da vida. Aquela sede que une o contentamento dos suspiros da Afeição aos silêncios da Satisfação. . . Aquele anseio que não pode ser vencido pela glória do mundo, nem dobrado pelo perpassar dos séculos.

Ali sentiu uma onda de estranha afeição e de bondade terna dentro de si — nada mais, nada menos que a Memória, avivando-se como um incenso a fumegar num turíbulo de prata… Era um amor mágico, cujos dedos macios haviam tocado o coração de Ali como os dedos finos de um músico tocando as cordas sensíveis de seu instrumento… Era um poder novo, emanado do nada e crescendo, irresistivelmente, abarcando o seu ser real e enchendo o seu coração de um amor ardente, ao mesmo tempo dolorido e doce.

Ali olhou para aquelas ruinas, e seus olhos cansados se tornaram vivos, quando imaginou a glória daqueles devastados santuários que ali se erguiam como antigos templos majestosos, inabaláveis. — eternos. Seus olhos pararam e o coração lhe palpitou no peito, acelerado… E, como um cego, cuja vista fosse, repentinamente, recuperada, começou a ver, pensar e meditar. Vieram-lhe à lembranças as lâmpadas e os incensórios de prata que rodeavam a imagem de uma deusa reverenciada e adorada… Ele se lembrou dos sacerdotes oferecendo sacrifícios diante de um altar de ouro e marfim… Vislumbrou as jovens dançando, os tocadores de pandeiros, os cantores que entoavam hinos de louvor à Deusa do Amor e da Beleza; viu tudo isso diante dele, e sentiu-lhes a impressão de obscuridade nas profundezas asfixiantes do coração. Mas só a memoria não traz nada senão os ecos de vozes ouvidas nas profundezas dos tempos idos. Qual, então, a bizarra relação entre essas tão fortes memórias entrelaçadas e a vida real de um jovem simples que nasceu numa tenda e passou a primavera da vida apascentando ovelhas nos vales?

Ali encolheu-se e caminhou no meio das ruínas; e, ruminando memórias, rompeu-se-lhe, de repente, do pensamento, o véu do esquecimento. Ao alcançar a entrada do templo, cava e enorme, parou, como se um poder magnético se apoderasse dele, e apressou o passo. Ao olhar para baixo descobriu uma estátua demolida no chão. Ele se desprendeu do controle do Invisível e, incontinente, as lágrimas da alma desencadearam-se-lhe e correram como sangue de uma profunda ferida. Gemeu-lhe o coração, arfante, um fluxo e refluxo, como as agitadas ondas do mar.

Suspirou amargamente e chorou penosamente, pois sentia uma solidão apunhalante, uma saudade dorida, como se houvesse um abismo entre o seu coração e o coração de quem se separou antes que nascesse nesta vida. Ele sentiu que a substância de sua alma era apenas uma flama da tocha incandescente que Deus havia separado de Si mesmo, ante do perpassar dos séculos. Ele percebeu o toque de plumas de delicadas asas esvoaçantes ao redor de seu coração em brasa, e um grande amor possuindo-o… Um amor capaz de separar a mente do mundo que se mede e se pesa… Um amor que se ergue como um farol, a apontar o caminho, guiando com luz invisível… Aquele amor, ou aquele Deus que desceu naquela hora calma sobre o coração de Ali tinha imprimido em seu ser uma afeição agri-doce, como os espinhos que crescem junto a viçosas flores.

Mas quem é esse Amor, e donde veio ele? Que deseja ele de um pastor ajoelhado no meio daquelas ruínas? Será ele uma semente lançada inconscientemente nos domínios do coração por uma beduína? Ou raio de luz partido do fundo de uma nuvem, para iluminar a vida? Será um sonho que se introduziu no silêncio da noite, para ridicularizá-lo? Ou será a Verdade, que sempre existiu, desde o Começo, e continuará existindo, até o Fim?

Ali cerrou os olhos lacrimosos e, estendendo os braços, como um mendigo, exclamou: "Quem és tu, junto ao meu coração e, entretanto, longe de minhas vistas, agindo, como uma parede, entre mim e o meu ser real, ligando o meu presente a um passado olvidado? És tu a sombra de um espectro da Eternidade, para mostrar-me a vaidade da vida e a fraqueza da humanidade? Ou um gênio saído das feridas da terra, para escravizar-me e tornar-me objeto de escárnio entre os jovens da minha tribo? Quem és tu, e qual é este poder estranho que ao mesmo tempo me mata e vivifica o coração? Quem sou eu, e que ser estranho é esse que eu chamo de "eu mesmo"? Será que a Água da Vida que bebi me fez um anjo, vendo e ouvindo os segredos misteriosos do Universo, ou é ela um vinho mau que me intoxicou e me ocultou de mim mesmo?

Ele calou-se, enquanto crescia a sua ansiedade, e seu espírito exultava. E continuou: "Oh! aquilo que a alma revela e a noite oculta. . . Oh! esplêndido espírito a flutuar sobre os meus sonhos: tu acordaste em mim uma plenitude latente como sementes férteis sob camadas de neve; passaste por mim como uma brisa suave, trazendo ao meu coração faminto a fragrância das flores dos céus; tocaste, agitando-os e sacudindo-os, os meus sentidos, como as folhas de uma árvore. Deixe-me ver-te, se és humano, ou manda que o sono feche meus olhos, para que eu possa ver a tua grandeza, através do meu ser interior. Deixa-me tocar-te; deixa-me ouvir a tua voz! Rompe este véu que impede o meu desejo e destrói este muro que esconde a minha deusa da claridade dos meus olhos — e coloca-me um par de asas para que eu possa voar contigo ao palácio do Supremo Universo. Ou enfeitiça os meus olhos, de modo a poder seguir-te ao esconderijo dos gênios, se és uma de suas noivas. Se mereço, coloca a tua mão sobre o meu coração e toma posse de mim."

Ali murmurou essas palavras na noite mística, quando sentiu a aparição das sombras da noite, como se fossem um vapor das suas lágrimas ardentes. Nas paredes do templo imaginava ver figuras mágicas, pintadas com o pincel do arco-íris.

Assim se passou uma hora, com Ali derramando lagrimas e regozijando-se nos seus terríveis transes; ouvindo as pancadas de seu coração; e olhando além das coisas, como se estivesse observando as imagens da Vida, esvaecendo, vagarosamente, a medida que eram substituídas por um sonho, esquisito em sua beleza, mas terrível em sua enormidade. Como um profeta que contempla as estrelas do céu, aguardando a Hora da Revelação, ele meditava sobre o poder existente além da sua contemplação. Percebia que o seu espírito o abandonava e saía, entre os templos, à procura de um valioso, mas desconhecido seguimento de si mesmo, perdido entre as ruínas.

A madrugada apontou, e o silêncio rugiu ao perpassar da brisa. Os primeiros raios de luz deslizavam, iluminando as partículas de éter, e o céu sorriu, como um sonhador, ao contemplar a imagem da sua bem-amada. Os pássaros emergiam de seus ninhos das fendas das paredes e se engolfavam nos salões entre as colunas, cantando suas preces matinais.

Ali pôs, na testa, a mão em concha, olhando para baixo com olhos embargados. Como Adão, quando Deus lhe abriu os olhos com Seu divino hálito, Ali viu coisas novas, estranhas e fantásticas. Então, reuniu as suas ovelhas e chamou-as, ao que elas o seguiram, mansamente, em direção aos prados verdejantes. Conduzia-as, enquanto contemplava, extasiado, o céu, como um filósofo que adivinhasse os segredos do Universo, meditando sobre eles. Alcançou um riacho, cujo murmúrio era um sedativo para o espírito e sentou-se à beira de uma fonte sob um salgueiro, cujos ramos mergulhavam na água, como que bebendo de suas frescas profundezas. Gotas de orvalho brilhavam na lã das ovelhas que pastavam entre flores e ervas verdejantes.

Em poucos momentos Ali sentiu de novo que as pancadas do coração se lhe amiudavam rapidamente e seu espírito começava a vibrar violentamente, quase visivelmente. Como uma mãe acordada subitamente pelo choro de seu filho, ele saltou de sua posição e, fitando nela, irresistivelmente, os olhos, viu uma linda mulher, trazendo um cântaro a um dos ombros, que se aproximava, lentamente, do outro lado do riacho. Quando ela alcançou a margem e se curvou para encher o vaso, olhou-o em frente, e seus olhos se encontraram com os de Ali. Como se tivesse enlouquecido, deu um grito, deixou cair o cântaro e fugiu rapidamente. Depois voltou-se, olhando, ansiosa, para Ali, sem acreditar no que via.

Passou um minuto, cujos segundos pareceram lâmpadas brilhantes, iluminando os seus espíritos e corações, e o silêncio lhes trouxe uma vaga recordação, revelando-lhes imagens e cenas distantes daquelas árvores e daquele riacho. Eles ouviram, um ao outro, no silêncio que falava, escutando, em lágrimas, os suspiros mútuos partidos do coração e da alma, até que se estabeleceu um completo entendimento entre os dois.

Ali, compelido, ainda, por uma força misteriosa, saltou o riacho, aproximou-se da encantadora criatura, abraçou-a e beijou-a longamente nos lábios. Como se a doçura dos carinhos de Ali houvesse dominado a sua vontade, ela não se moveu, e o toque delicado nos braços de Ali como que lhe roubou os forças. Entregou-se a ele, como a fragrância do jasmim se entrega às vibragoes da brisa, que a leva para o firmamento. Ela descansou a cabeça no seu peito, como um sofredor que encontrou descanso. E suspirou profundamente… um suspiro que anunciava o renascimento da felicidade num coração despedaçado e soava como uma agitação de asas que subissem, depois de terem sido feridas e derrubadas.

Ela ergueu a cabeça, a alma nos olhos — o olhar de alguém que, em profundo silêncio, despreza as palavras convencionais usadas entre os homens; a expressão que oferece miríades de pensamentos na linguagem sem palavras do coração. Ela trazia a aparência de alguém que aceita o Amor, não como uma idéia contida num grupo de palavras, mas como um reencontro que se dá muito depois de duas almas terem sido separadas pela terra e reunidas por Deus, de novo.

O casal enamorado caminhou entre os salgueiros e a unidade das duas almas era a linguagem em que falavam; os olhos com que viam a glória da Felicidade; o ouvido atento aquela magnífica revelação do Amor.

As ovelhas continuavam a pastar, e os pássaros dos céus voejavam ainda sobre as suas cabeças, cantando a canção da Madrugada, que se seguia à amplidão da noite. Ao chegarem ao fim do vale, o sol apareceu, espalhando um véu dourado sobre os outeiros e as colinas, e eles sentaram ao lado de uma pedra junto a qual se escondiam violetas. A linda mulher olhava nos olhos negros de Ali, enquanto a brisa acariciava os seus cabelos que, assim, pareciam pontas de dedos a pedir beijos…

Ela sentiu como se uma brandura mágica e envolvente lhe estivesse tocando os lábios, a despeito de sua vontade, e com uma voz serena e encantadora disse: "Istar restaurou os nossos espíritos de outra para esta vida, de modo a não nos ser negada a alegria do Amor e a glória da Juventude, meu amado".

Ali fechou os olhos, como se a voz dela lhe houvesse trazido imagens de um sonho que ele tinha tido, e sentiu como que um par de asas invisíveis levando-o daquele lugar e colocando-o numa estranha alcova, ao lado de uma cama sobre a qual jazia o cadáver de uma mulher, cuja beleza havia sido reclamada pela Morte. Ele gritou, assustado, e, abrindo os olhos, viu a mesma mulher sentada ao seu lado, e nos seus lábios esboçava-se um sorriso. Os olhos dela brilharam com a luz da Vida. Um brilho estranho estampou-se também no rosto de Ali, e seu coração se reconfortou. A imagem de sua visão se retirou, vagarosamente, até que se esqueceu, completamente, do passado e seus cuidados. Os dois amantes abraçaram-se e beberam, juntos, o vinho de beijos capitosos, até se embriagarem. Dormitaram, abraçados, apertadamente, até que as últimas sombras do dia foram dispersadas pelo Poder Eterno e os despertou…

Um comentário:

PROFESSOR RODRIGO GEVEGIR disse...

TENHO UM IMENSO ORGULHO DE VER QUE EM NOSSA ETNIA, PRINCIPALMENTE NOSSA VÍTCIA EXISTE PESSOAS ASSIM QUE ELEVAM A CULTURA COM RESPEITO E SERIEDADE, PARABÉNS RUANO VC É UM ORGULHO PARA NÓS KALONS...O BLOG ESTA EXELENTE!!!